Manifesto de uma vida planejada
Sobre o tempo que passa, o que ainda está ao nosso alcance e a vida que ainda podemos construir.

Eu aprendi muito cedo que o tempo não é uma promessa.
Perdi minha mãe quando tinha nove anos.
Nove anos podem parecer pouco quando olhamos para uma vida inteira. Mas para mim, nunca foram pequenos. Foram intensos, cheios de presença, experiências e aprendizados que continuam comigo até hoje.
Minha mãe era uma mulher muito forte. Bonita, segura, firme, dona de si. Daquelas mulheres que ocupam o próprio lugar no mundo. Do nosso tempo juntas, guardo os valores que me ensinou, o exemplo de força feminina, as conversas — inclusive as difíceis — e a sensação de ter vivido muito dentro do pouco tempo que tivemos.
Assim, quando penso nela, não penso apenas na perda, mas em tudo o que coube naqueles nove anos.
E talvez seja justamente por terem significado tanto que eu também consiga perceber tudo o que ainda poderia ter cabido: minha adolescência, a entrada na vida adulta, minha maternidade, as inúmeras versões de mim que ela não chegou a conhecer — e as versões dela que eu também não pude conhecer.
Não cresci sem apoio. Meu pai sempre esteve ao meu lado, disponível quando precisei, e nossa relação sempre foi marcada por respeito, responsabilidade e confiança.
Mas a ausência tornou o tempo concreto para mim. Mostrou, de uma forma que nenhuma frase conseguiria ensinar, que algumas coisas não podem ser empurradas indefinidamente para depois.
E também me fez assumir meu lugar na vida muito cedo. Aprendi a cuidar das minhas responsabilidades, dos estudos, da rotina e dos meus caminhos. A buscar aquilo que queria, encontrar alternativas e continuar avançando quando alguma coisa não acontecia como eu esperava.
Essa experiência ajudou a formar uma característica que me acompanha até hoje: diante da vida, minha tendência sempre foi tentar descobrir o que eu podia fazer com o que tinha à minha frente.
Talvez venha daí parte da minha dificuldade em aceitar a ideia de que somos simplesmente aquilo que as circunstâncias fizeram de nós. Obviamente, as circunstâncias importam. Elas podem facilitar, limitar e, às vezes, mudar completamente uma trajetória. Mas ainda existe uma parte que nos pertence: aquela em que escolhemos o que fazer quando a realidade se impõe.
Quando me tornei mãe, essa consciência ganhou uma nova dimensão. A história da minha mãe deixou de pertencer apenas à filha que eu fui e passou a atravessar também a mãe que eu me tornei. Passei a perceber que o que deixamos é formado não apenas pelo que ensinamos, mas pela maneira como escolhemos viver.
Ah, e como eu quero viver… Não apenas colecionar anos, mas ter vida na minha vida.
Conhecer lugares novos, ver minhas filhas crescerem, continuar estudando, construir projetos, mudar de opinião, ter novas ideias, criar coisas que hoje ainda não existem, cuidar das relações importantes, realizar grandes ambições e viver experiências aparentemente pequenas que talvez, quando eu olhar para trás, descubra que eram algumas das maiores.
Quero continuar tendo futuro.
Por isso eu não trato a vida como algo que começa depois: quando tudo estiver resolvido, quando houver mais tempo, quando as responsabilidades diminuírem ou quando finalmente chegar a condição perfeita.
Algumas coisas realmente precisam esperar — os nove meses de gestação provam isso. Existem também fases em que o possível é sobreviver, cuidar, pagar contas, atravessar uma dificuldade. Nem tudo depende de nós e nem toda escolha está disponível o tempo inteiro — reconhecer isso é maturidade.
O problema começa quando uma condição temporária passa a responder permanentemente pela nossa vida, quando aquilo que hoje não conseguimos vira uma conclusão sobre quem somos, ou quando uma decisão antiga, um medo, uma dificuldade ou a vontade de outra pessoa continua definindo o nosso futuro.
Uma vida que reconheceríamos como nossa pode ser adiada indefinidamente porque nunca recebeu um lugar real entre nossas escolhas, por estarmos somente apagando incêndios,correspondendo o que esperam de nós e colocando aquilo que importa para um futuro que parece sempre disponível - verdade dura: ele não estará.
Existe responsabilidade naquilo que está ao nosso alcance, pois tudo o que construímos custa tempo de vida, e esse é o nosso recurso mais valioso.
É dessa relação com o tempo, com as escolhas e com aquilo que ainda podemos construir que nasce Uma Vida Planejada.
Da possibilidade de participar da construção da vida enquanto ainda há vida para construir.
“Planejar não é garantir o futuro. É não abrir mão de participar dele.”
Maite Vargas