Carta aberta às minhas filhas
Sobre tempo, escolhas e o desejo de que construam uma vida que reconheçam como sua.

Amadas da mãe,
Vocês chegaram depois das perguntas.
Elas começaram quando eu soube que estava grávida. Mãe Leoa que sou já me questionava: como proteger vocês do mundo e criá-las para ele? Como preparar vocês para a vida sem escolher a vida por vocês? Como ensinar aquilo que considero importante e, ao mesmo tempo, deixar espaço para que descubram quem são e quais caminhos querem seguir?
Com o tempo, e com o que vocês me ensinaram e seguem ensinando, fui construindo a minha maternidade: proteger sem sufocar, orientar sem controlar, e me fazer disponível como um apoio que, a cada passo, vocês vão deixando de precisar.
Não tenho a ilusão de que nunca enfrentarão obstáculos. Mas desejo que tenham recursos para superá-los, que cuidem de si, que peçam ajuda quando precisarem, que saibam o valor - e não somente o preço - das coisas, que escolham relacionamentos que as façam bem, e que revejam caminhos quando necessário.
E, principalmente, que nunca confundam “ainda não sei” com “não sou capaz”.
É por isso que falo sobre planejamento para a vida. Não porque eu queira que a vida de vocês seja rígida, previsível ou perfeita, mas porque acredito que planejar amplia liberdade.
Liberdade para olhar aquilo que ainda não existe e começar a construir as condições para que exista. Para transformar desejo em escolha, e escolha na direção de uma vida que vocês reconheçam como sua.
Porque a vida é curta demais para ser adiada e preciosa demais para ser vivida sem participação na própria direção.
Isso não significa viver com pressa. Significa não deixar indefinidamente para depois aquilo que já se sabe que importa — e o entendimento de que o tempo que entregamos às pessoas, aos projetos e às escolhas não é o preço da vida. É a vida acontecendo.
Ser mãe me faz pensar na mulher que eu sou diante de vocês. Quero que me vejam amar profundamente sem desaparecer de mim mesma, buscar minhas — nossas — conquistas, e mudar de ideia quando for necessário, vivendo de acordo com aquilo que para mim importa.
Não porque eu vá acertar sempre — vocês já sabem que não acerto —, mas porque integridade também é isso: aproximar a vida que vivemos daquilo em que acreditamos.
Vocês são minhas filhas e também algumas das minhas maiores professoras. Com vocês aprendo diariamente sobre presença, limites e sobre a mulher que ainda quero me tornar.
Um dia, quero que precisem cada vez menos das minhas respostas.
Espero que continuem querendo minha presença, meus conselhos e nossas conversas — mas que confiem, antes de tudo, em vocês mesmas.
E que, quando eu não estiver mais aqui, tenha ficado algo que permaneça: integridade, amor próprio e a grandeza de ser quem vocês são.
Para que, muitos anos daqui para frente, ao olharem para a própria trajetória, vocês possam dizer:
Esta vida tem a minha presença.
Esta é uma vida que eu reconheço como minha.
Com todo o meu amor,
Sua mãe. Sempre.
Maite Vargas