Cartas

Carta aberta às minhas filhas

Sobre tempo, escolhas e o desejo de que construam uma vida que reconheçam como sua.

29 de agosto de 20263 min de leitura
Detalhe de caneta sobre carta manuscrita, café ao lado, preto e branco.

Amadas da mãe,

Vocês chegaram depois das perguntas.

Elas começaram quando eu soube que estava grávida. Mãe Leoa que sou já me questionava: como proteger vocês do mundo e criá-las para ele? Como preparar vocês para a vida sem escolher a vida por vocês? Como ensinar aquilo que considero importante e, ao mesmo tempo, deixar espaço para que descubram quem são e quais caminhos querem seguir?

Com o tempo, e com o que vocês me ensinaram e seguem ensinando, fui construindo a minha maternidade: proteger sem sufocar, orientar sem controlar, e me fazer disponível como um apoio que, a cada passo, vocês vão deixando de precisar.

Não tenho a ilusão de que nunca enfrentarão obstáculos. Mas desejo que tenham recursos para superá-los, que cuidem de si, que peçam ajuda quando precisarem, que saibam o valor - e não somente o preço - das coisas, que escolham relacionamentos que as façam bem, e que revejam caminhos quando necessário.

E, principalmente, que nunca confundam “ainda não sei” com “não sou capaz”.

É por isso que falo sobre planejamento para a vida. Não porque eu queira que a vida de vocês seja rígida, previsível ou perfeita, mas porque acredito que planejar amplia liberdade.

Liberdade para olhar aquilo que ainda não existe e começar a construir as condições para que exista. Para transformar desejo em escolha, e escolha na direção de uma vida que vocês reconheçam como sua.

Porque a vida é curta demais para ser adiada e preciosa demais para ser vivida sem participação na própria direção.

Isso não significa viver com pressa. Significa não deixar indefinidamente para depois aquilo que já se sabe que importa — e o entendimento de que o tempo que entregamos às pessoas, aos projetos e às escolhas não é o preço da vida. É a vida acontecendo.

Ser mãe me faz pensar na mulher que eu sou diante de vocês. Quero que me vejam amar profundamente sem desaparecer de mim mesma, buscar minhas — nossas — conquistas, e mudar de ideia quando for necessário, vivendo de acordo com aquilo que para mim importa.

Não porque eu vá acertar sempre — vocês já sabem que não acerto —, mas porque integridade também é isso: aproximar a vida que vivemos daquilo em que acreditamos.

Vocês são minhas filhas e também algumas das minhas maiores professoras. Com vocês aprendo diariamente sobre presença, limites e sobre a mulher que ainda quero me tornar.

Um dia, quero que precisem cada vez menos das minhas respostas.

Espero que continuem querendo minha presença, meus conselhos e nossas conversas — mas que confiem, antes de tudo, em vocês mesmas.

E que, quando eu não estiver mais aqui, tenha ficado algo que permaneça: integridade, amor próprio e a grandeza de ser quem vocês são.

Para que, muitos anos daqui para frente, ao olharem para a própria trajetória, vocês possam dizer:

Esta vida tem a minha presença.

Esta é uma vida que eu reconheço como minha.

Com todo o meu amor,

Sua mãe. Sempre.

Maite Vargas

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De tempos em tempos, envio uma carta. Sobre aquilo que a vida vai ensinando quando deixamos de apenas reagir e começamos a construir com mais direção.

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Uma publicação autoral de Maite Vargas, fundadora da MPVIDA Planejamento.

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